sexta-feira, 18 de abril de 2008

Texto IV - Crônica

Gênero considerado tipicamente brasileiro, sob vários aspectos, a crônica transita entre o jornalismo e a literatura e aposta na subjetividade para relatar, de maneira informal, os fatos do dia-a-dia. Os cronistas têm a liberdade total do texto subjetivo. O cronista nos empresta suas lentes para ver o mundo e nos faz enxergar o que bem entende, em seu universo interior.

Apesar de ser considerada, por muitas décadas, como gênero menor, muitos autores importantes se dedicaram a ela. Carlos Drummond de Andrade foi um dos grandes cronistas do cotidiano do Rio de Janeiro. O mesmo pode-se dizer de Olavo Bilac, que, no início do XX, passou a produzir crônicas num jornal carioca, substituindo outro grande escritor, Machado de Assis. Rubem Braga é tido por muitos críticos como o grande mestre dessa peculiar modalidade de texto curto.

Leia, a seguir, a primeira crônica escrita contra o Golpe Militar de 1º de abril de 1964.

Da Salvação da Pátria

Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto Seis, segundo me afirmaram, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

E vejo. Vejo um heróico general, à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV-Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da avenida Atlântica com a rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se à missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro.

Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos, patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

- General, para que é isto?

O intrépido soldado não se dignou olhar-me. Rosna, modestamente:

- Isso é para impedir os tanques do I Exército!

Apesar de oficial da Reserva – ou talvez por isso mesmo –, sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um Exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é o meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o I Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame, aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.
Os rapazes de Copacabana, belos espécimes de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça.

Olho o chão. Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.

Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um Cadillac conversível pára perto do “Six”* e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declaram todos que a Pátria está salva.
Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

- É carnaval, papai?
- Não.
- É campeonato do mundo?
- Também não.

Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

(2-4-1964)

* Uma pequena lanchonete no Posto Seis, onde depois se instalou um banco.

Carlos Heitor Cony, crônica publicada originalmente no Diário da Manhã, republicada em livro no mesmo ano e reeditada em “O ato e o Fato – o som e a fúria das crônicas contra o Golpe de 1964”, Editora Objetiva, 2004.


Literatura de jornal (o que é a crônica?)

Artur da Távola

A crônica é a expressão das contradições da vida e da pessoa do escritor ou jornalista, exposto que fica, com suas vísceras existenciais à mostra no açougue da vida, penduradas à espera do consumo de outros como ele, enrustidos, talvez, na manifestação dos sentimentos, idéias, verdades e pensamentos.

Já escrevi mais de cinco mil crônicas. E a uns estudantes que me pediram uma síntese sobre o gênero, respondi o seguinte:

É o samba da literatura. É ao mesmo tempo, a poesia, o ensaio, a crítica, o registro histórico, o factual, o apontamento, a filosofia, o flagrante, o miniconto, o retrato, o testemunho, a opinião, o depoimento, a análise, a interpretação, o humor. Tudo isso ela contém, a polivalente. Direta a simples como um samba. Profunda como a sinfonia.
É compacta, rápida, direta, aguda, penetrante, instantânea (dissolve-se com o uso diário), biodegradável, sumindo sem poluir ou denegrir, oxalá perfume, saudade e algum brilho de vida no sorriso ou na lágrima do leitor.

A literatura do jornal. O jornalismo da literatura. É a pausa de subjetividade, ao lado da objetividade da informação do restante do jornal. Um instante de reflexão, diante da opinião peremptória do editorial.

É tímida e perseverante. Não se engalana com os grandes edifícios da literatura, mas pode conter alguns de seus melhores momentos. Não se enfeita com os altos sistemas de pensamento, mas pode conter a filosofia do cotidiano e da vida que passa. Não se empavona com a erudição dos tratados, mas pode trazer agudeza de percepção dos bons ensaios.

Para ser boa, não deve ser mastigada. Deve dissolver-se na boca do leitor, deixando um sabor de vivência comum. Deve parecer que já estava escrita há muito tempo na sensibilidade de quem a lê e foi apenas lembrada ou ativada pelo escritor/jornalista que lhe deu forma.

Deve ser rápida como a percepção e demorada como a recordação. Verdadeira como um poente e esperançosa como a aurora. Irreverente como um carioca. Suave como pele de mulher amada e irritada como uma criança com fome.

Terna como a amamentação e insegura como toda primeira vez. Religiosa como a portadora do mistério e agnóstica como um livre pensador. A crônica nos obriga à síntese, à capacidade de condensar emoções em parágrafos-barragem. Faz-nos prosseguir, mesmo quando nos sentimos repetitivos. É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura.

Jornal O Dia, 27 de junho de 2001

Lourenço Diaféria traduz também imprime sua visão sobre o gênero:

"A crônica é a reinvenção da lua abstraída das violações científicas e espaciais, é a metafísica dos postes e das azaléias, é a lupa que permite confirmar com a palavra escrita, se o sabonete Palmolive continua a abrir os poros e manter a pele leve e acetinada. A crônica existe para dar credulidade aos jornais, saturados de notícias reais demais para serem levadas a sério. A crônica descobre as pessoas no meio da multidão de leitores. Ela revela ao distinto público que, atrás do botão eletrônico, existe um baixinho resfriado e de nariz pingando, que assoa e vocifera. A crônica serve para mostrar o outro lado de tudo - dos palanques, das torres, de eclipses, das enchentes, dos barracos, do poder e da majestade. Ela não consta no periódico por condescendência. A crônica é a lágrima, o sorriso, o aceno, a emoção, o berro, que não tem estrutura para se infiltrar como notícia, reportagem, editorial, comentário ou anúncio publicitário no jornal. E, contudo, é um pouco de tudo isso."

Diaféria, Lourenço. Depoimento - Escritor Brasileiro/81. Secretaria Municipal de Cultura, São Paulo, 1981.

Meu Ideal Seria Escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem – "mas de onde é que você tirou essa história?" – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga
A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

sábado, 12 de abril de 2008

Simulado online (quiz)

É interessante que todos entrem no site do ENEM para responder perguntas do quiz que são perguntas dos anos anteriores do ENEM, além de muitas coisas legais.

Bjossss

Gabi, aluna de Porto Alegre

http://www.enem.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=91&Itemid=132

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Enem 2008: inscrições começam em maio

Mais informações em:
http://www.enem.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=95&Itemid=1

USP cria prova na rede pública como bônus para Fuvest

A USP (Universidade de São Paulo) vai realizar em setembro ou outubro uma prova no 3º ano do ensino médio de escolas públicas do Estado, que contará pontos na Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular). A idéia é criar uma espécie de avaliação seriada, mas que não substituirá o vestibular.

O desempenho do aluno na prova vai representar um bônus de até 3% na nota do vestibular, índice que deve aumentar nos próximos anos quando serão incluídas provas para estudantes de 1º e 2º ano do ensino médio. A mudança no mais concorrido vestibular do país foi aprovada no fim de março e representa a segunda etapa de um programa de inclusão da USP, o Inclusp.

Além disso, candidatos oriundos de qualquer escola pública do Brasil receberão um acréscimo de até 6% em suas notas conforme seus resultados no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O exame, feito pelo MEC (Ministério da Educação), já dá pontos adicionais na Fuvest para todos os concorrentes, medida que não será alterada. Com os outros 3% que já são dados desde 2006, serão até 12% de bônus na Fuvest para alunos de escolas públicas a partir deste ano.


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Em dúvida sobre que curso escolher?

Veja Guia de Profissões em

http://educacao.uol.com.br/ensino-medio/profissoes.jhtm

Caixa tem 2 mil vagas de estágio para bolsistas do ProUni

A Caixa Econômica Federal tem duas mil vagas de estágio para universitários do ProUni (Programa Universidade para Todos). As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo site do no Ciee (Centro de Integração Escola Empresa) ou no IEL.

Leia mais e acesse os links em:

http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/04/08/ult2738u235.jhtm

sábado, 5 de abril de 2008

Língua (Caetano Veloso)

Clip com a canção em dueto com Elza Soares. A letra está mais em baixo.

Exercício - Introdução

Faça introduções de um parágrafo, explicitando o tema e o seu ponto de vista, para os seguintes temas:

1) O preconceito racial na realidade brasileira
2) Acesso ao ensino superior de qualidade para todos
3) A influência da telenovela na opinião pública

Não deixe de enviar a redação da semana pelo e-mail redacao.enem@gmail.com, com cópia para enem@mandic.com.br. Ela será encaminhada para uma corretora especializada, avaliada segundo os critérios do ENEM e devolvida para você com comentários que o ajudarão a se preparar para a prova.

As orientações completas estão no link abaixo.
http://enemnota100.blogspot.com/2007/05/quando-termino-uma-redao-para-onde-eu.html.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Minha pátria, minha língua

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho –, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. "Fabricou Salomão um palácio..." E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

["Livro do Desassossego", por Bernardo Soares. Vol. I, Fernando Pessoa.]

Vocabulário

A partir do Dicionário Houaiss On-line

Bruxulear: brilhar intermitentemente; tremeluzir
Devaneio: produto da fantasia, da utopia; sonho, quimera
Esbatido: de tom ou colorido pálido
Gala:
1 Rubrica: vestuário.
traje próprio para ocasiões solenes
2 grande fartura; riqueza, abundância; fausto
3 conjunto de ornamentos ricos, preciosos
Hierático: relativo às coisas sagradas ou religiosas
Derivação: por extensão de sentido.
solene, formal

Palavrar:
neologismo?

A palavra não consta do Houaiss. Porém, no velho e bom Caldas Aulete aparece com os seguintes significados:

pairar, palavrear
o mesmo que apalavrar

Vamos ao sentido do texto...

Palavrear:
1 falar muito e irrefletidamente
2 dirigir a palavra; falar
3 trocar palavras, idéias (com alguém); conversar, palestrar

Apalavrar:
contratar verbalmente; acertar, combinar, pactuar

Mórbido:
1 relativo a ou que revela doença, enfermidade
2 falto de vigor, de energia; frouxo,
Régio:
1 que pertence ou diz respeito ao rei; que emana do rei
2 Derivação: sentido figurado.
que tem suntuosidade; magnífico
Ribeiro: pequeno curso de água; riacho
Transliteração: ato de transliterar
Transliterar: escrever com um sistema de caracteres (algo escrito com outro)
Ex.: sabe t. japonês
Transmudar: tornar(-se) diferente; fazer passar ou passar de um estado ou condição a outro; alterar(-se), transformar(-se)
Toldar: cobrir, fazer uma espécie de toldo ou dossel sobre
Vero: verdadeiro, real, autêntico

domingo, 30 de março de 2008

Língua (letra e música de Caetano Veloso)

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e Maria da
Fé e Arrigo barnabé

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro

Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem

O que é prosódia?

Prosódia = parte da gramática tradicional que se dedica às características da emissão dos sons da fala, como o acento e a entoação.

O que é paródia?

Paródia = obra literária, teatral, musical etc. que imita outra obra, ou os procedimentos de uma corrente artística, escola etc. com objetivo jocoso ou satírico; arremedo

O que é neologismo?

Neologismo = emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, da mesma língua ou não, ou atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na língua.

Caetano, na letra da canção "Língua", cria neologismos como “mátria” e “frátria”, derivados das palavras latinas mater = mãe e frater = irmão, em oposição à pátria, derivada de pater = pai.

O mesmo faz Manuel Bandeira no poema abaixo:

Neologismo
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, a verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

(BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970)

Vamos aprofundar um pouco?

Segundo a Gramática Normativa da Língua Portuguesa, de Francisco da Silva Bueno, o neologismo (que significa: palavra nova) pode ser classificado em varias espécies:

I- Neologismo literário;
II- Neologismos científicos ou técnicos;
III-Neologismo popular;
IV-Neologismo completo;
V-Neologismo incompleto;
VI-Nelogismo estrangeiro.

Quer saber mais sobre cada uma dessas espécies de neologismo?

I-Neologismo literário

Os escritores criam palavras novas ou dão novos significados às palavras já existentes, no entanto, esse artifício é usado somente para fins puramente literários ou artísticos. Exemplos:

Vesperal (espetáculo)- S.M. Neologismo feito por Cláudio de Sousa para substituir o gal. Matinee.

Necrotério – criação de Taunay, grande romancista brasileiro. Necrotério (gr. Nelcros + terion). Construção onde se depositam os cadáveres; local onde os cadáveres são expostos para identificação; lugar onde jazem os cadáveres que vão ser autopsiados. Esta palavra foi criada para substituir o francesismo morge.

Convescote – S.M. Bras. Piquenique; criação de Castro Lopes, assim como, cardápio (menu).

II-Neologismos científicos ou técnicos

Todas as nomenclaturas das ciências novas: os nomes das máquinas, aparelhos, invenções, a linguagem da Química, da Eletrodinâmica, da Telegrafia, da Radiotelegrafia, da Aviação. Exemplos:

Microfone - S.M. (gr. Mikros + phone). Aparelho de intensificação do som, inventado por Hughes: aparelho eletrostático de ondas sonoras que transforma as ondas de pressão em força eletromagnética.

Telefone – S.M. (gr. Tele, longe + phone, som, voz). Aparelho que permite a transmissão de voz através de fios e disposições elétricas.

Aeromoça – tripulante que nos aviões serve as refeições aos passageiros e lhes presta outros serviços.
Táxi (forma reduzida de taxímetro)- automóvel de aluguel ou qualquer veículo de frete; registro de preço a pagar, em função do tempo em que é alugado o veiculo.

Nota: há neologismos científicos ou técnicos que são formados a partir de siglas: CPF, CPI, ONG, CD; um caso muito conhecido e o do neologismo LASER (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation) ou também a sigla AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome) e DST (Doença Sexualmente Trasmissível).

III-Neologismo popular

Em sua necessidade de expressão, o povo cria novos termos ou dá novos significados a termos já conhecidos. Exemplos:

Embuchar - V.T. significa engravidar.
Ex. Joaquina “ta embuchada” de três meses.

Gato - S.M. Ligação clandestina de eletricidade.
Ex. No morro da Rocinha, a maior favela da América Latina, a maioria dos barracos tem a sua energia elétrica sustentada por gatos.

Prensadão - S.M. O substantivo cachorro quente, nome relacionado ao sanduíche de pão com salsichas, quando prensado em uma chapa quente recebe o nome de prensado. Numa pesquisa de campo constatou-se que, quando o suposto cachorro quente prensado possui medidas maiores que as do padrão, recebe o nome de prensadão.
Ex. Eu quero um prensadão completo!

Laranja – S.M. Falso proprietário.
Ex. Pedro serviu de laranja para o estelionato.

Mané –S.M. Individuo inepto, indolente, desleixado, negligente, palerma. Também se diz mané-coco, manema e manembro.
Ex. Não da bola pra esse mané!

Papudo-Adj. Fanfarrão, gabola, garganta.
Ex. Você e muito papudo!

IV-Neologismo completo

Este nome refere-se ao neologismo que é criação quanto à forma, e criação quanto ao sentido.Exemplos:

Necrotério - relaciona-se somente ao lugar onde se expõem os cadáveres que vão ser autopsiados ou identificados.

Microfone - relaciona-se somente ao dispositivo que, no posto transmissor, capta o som que vai ser levado aos receptores através de ondas hertzianas.

Outros exemplos – vesperal, convescote, cardápio.

V-Neologismo incompleto

Assim denominam-se os vocábulos já existentes na língua que tomaram novas significações. Exemplos:

Formidável - Adj. Este vocábulo já teve o sentido de temível, terrível, que inspira grande temor, perigoso. Hoje e usado basicamente com o sentido de maravilhoso, acima do comum, admirável, excelente.

Papudo - Adj. Aquele que tem papo grande. Atualmente aplicado ao individuo fanfarrão, gabola.

Picareta – S.F. Instrumento de ferro com duas pontas, serve para escavar a terra e arrancar pedras. Hoje este termo vem sendo mais aplicado ao individuo de má índole, insinuante, tratante.

VI-Neologismo estrangeiro

(também chamado de estrangeirismo)

São palavras que adotamos de outras línguas por nos faltarem vernáculas; a tendência mais comum é a de escrevê-las de maneira aportuguesada. Exemplos:

Futebol - S.M. Do inglês foot-ball

Abajur-S. M. É o francês abat-jour.

Bebê – S.M. Criancinha vem do francês bébé. Antigamente foi o nome de um anão da corte de Estanislau Leczynski. Pode ter sido também originada de palavra inglesa baby.

Carpete – S.M. Do inglês carpet; tapete que reveste inteiramente um cômodo, em geral afixado ou colado ao chão.

Bracelete – S.M. pulseira. Fr. Bracelet
. Buquê – S.M. ramo de flores. Fr. Bouquet.

Skate – S.M. Prancha com rodinhas, se escreve exatamente como no original.

Bicicleta – S.F. velocípede de duas rodas. Fr. Bicyclette

Bife – S.M. Posta de carne de vaca, do inglês beef.

Bidê – S.M. criado mudo. Fr. Bidet

Xérox – (cherocs).Do inglês xerox. Nome registrado, arte gráfica, fotocópia.

Shopping - reunião de lojas comerciais, serviços de utilidade pública, casas de espetáculo, etc., em um só conjunto arquitetônico.

Show – espetáculo de teatro, radio, televisão, etc. geralmente de grande montagem, que se destina à diversão.

Outros exemplos: motoboy, hipermercado, internete, jeans, etc.

Como ocorre?

Causas do neologismo

A principal causa é a necessidade de expressão: Com o surgimento de novas invenções, novos objetos, novos conceitos, enfim, novas idéias; faz-se necessário o aparecimento de novos nomes que se adaptem ao significado daquilo que os representa. Se não há nenhum vocábulo que possa ser adaptado, é imprescindível criar-se um, uma nova palavra, algo especial. Exemplos:

Microfone, televisão, necrotério, etc.

Outro fator é a inclinação do espírito humano para especificar, classificar, catalogar, ou mesmo positivar as diferenças existentes entre os seres, dando a cada uma delas o devido nome, algo que corresponda a essa necessidade de clareza e de especificação. Exemplos:

Papudo, mane, picareta.

Para que o neologismo vença e se radique na língua basta uma só condição: ser necessário a uma precisão do espírito humano. Mas se tal necessidade não existe, poderá manter-se por meses, desaparecendo, certamente, apesar de todos os esforços dos autores. Exemplos:

Coelho Neto criou: luademelar, dorremifassolar;

Castro Lopes fez ainda: focale, runimol, nasoculos.

Nota: para que o neologismo radique na língua é necessário que aja necessidade no emprego do termo a uma expressão, tais termos não foram aceitos, pois não correspondiam a uma necessidade e expressão.
Outra causa é a rapidez da expressão: em lugar de expressão bastante longa - “apresentar felicitações” - diz-se logo- “felicitar” - e aparece assim o neologismo.

A língua do neologismo

Os neologismos científicos e literários são feitos do grego e do latim, muitas vezes combinados com o idioma pátrio: televisão (tele= grego; visão= português), gasogênio (gás= germânico; gênio= grego), glossofone (ambos gregos). Quando o neologismo é formado de elementos pertencentes a uma mesma língua, diz-se que está bem feito; quando os elementos são de idiomas diferentes, diz-se que é híbrido. Hibridismo é, pois, a formação de um vocábulo com elementos de diversas línguas: gasogênio, televisão, mandão-mirim. Os neologismos populares são todos adaptações de termos já existentes na língua e, portanto, de origem vernácula.

Fonte: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070618145937AAvPNH3